A família e a virtude (escrito para o blog de Lu Lacerda)

Sempre prezei minha família. Em pequeno, eu tinha o maior orgulho da enorme barriga do meu avô, sempre coberta por uma camisa branca, geralmente marcada por furinhos deixados pelas cinzas que caíam do charuto mastigado que ele guardava na boca, mesmo quando tirava um cochilo na poltrona, depois do jantar. Para mim, ele era uma espécie de super-herói que podia afastar todo o mal e violência do mundo apenas com algumas barrigadas. Orgulhava-me também da minha avó, sempre provendo comida para todos, enchendo a mesa de todo tipo de papança, da terra, do mar e do ar, e cujos frondosos peitos pareciam aptos a alimentar todo o Planeta.

Orgulhava também da minha mãe, que, no piano, com os cabelos cobrindo seu rosto sério e compenetrado, parecia o clone do pequeno busto de Beethoven, seu grande ídolo de infância. Àquela época, eu pensava que minha irmã mais velha, já adolescente, que vivia fazendo caras e bocas no espelho, era namorada do Elvis Presley, tal a semelhança e a intimidade que ela parecia ter quando cantava suas canções.

Também eu respeitava muito minha outra irmã, só ano e meio mais velha do que eu, mas que já estava na escola, indo de uniforme com gravatinha e tudo. Uma vez, quando me foi permitido acompanhá-la, impediu que eu fosse humilhado por uma criança maior, que se aproximara com más intenções. Meu pai, nem se fala — era uma espécie de ser mítico, um protodeus, filho de Urano e Gaia (do Céu e da Terra), um verdadeiro Titã. Assim fui crescendo, descobrindo o mundo, minha bola baixando com as lambadas da realidade, minha família perdendo o encanto, mas sem deixar de me orgulhar.

Com o passar dos anos, a vida se acumulando, fui vendo que todas as famílias são as melhores: todos os avôs, os mais honrados; as mães, as mais bondosas; os pais, os mais fortes. Comecei a desconfiar desse negócio de “Família Brasileira”, essa entidade que encobre políticos corruptos, que desculpa falcatruas, que emprega incompetentes. Essa entidade tão evocada no impeachment da Dilma Rousseff pelos maiores crápulas: “Pelos meus filhos, pelos meus pais, pela minha família” (eu posso ser um descarado).

Esses valores falsamente cristãos, defendidos por pastores venais e presidentes indecorosos que tratam suas famílias como se fossem superiores, acima do bem e do mal, merecedores das maiores benesses, nada têm de cristãos. Cristo sempre nos mandou amar ao próximo como a nós mesmos e, já preso à cruz, quando vê sua mãe, ele diz apontando João: “Mulher, eis o teu filho!”. Não é nenhuma virtude amar aos seus, amar sua própria família. A virtude moral está em amar a todos, em querer o bem de todos, em se sacrificar por todos, em poder abrir mão de seus interesses, de suas vantagens, de sua riqueza para que todos possam viver melhor. Não se deixem enganar por esses que se acham bonzinhos, honestos e generosos só porque amam suas famílias. Amar nossa família não é grandeza, é obrigação. Dignidade é amar a família dos outros.


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